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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

FIRE Parte II: Liberdade e o Paradoxo da escolha

No final de 2017 iniciei minhas "férias" sem previsão de retorno. Era mais do que um ano sabático, estava começando ali minha VIDA FIRE! A empolgação tomou conta de mim, um excitação, uma sensação de liberdade. Parecia que tinha em mãos uma carta de alforria que me garantiria escolher o que fazer e para onde ir, com uma renda passiva de aproximadamente 15 mil por mês.

O início foi um pouco diferente do esperado pois não consegui me desligar do trabalho e continuei a frequentar o escritório como um cachorro que não percebe a morte do dono, mantendo contato com pessoas e acompanhando tudo que acontecia pelas redes sociais. Foram muitas noites sonhando que ainda estava trabalhando, dos desafios, das negociações e das discussões. Em um determinado momento meu corpo já não ia para o trabalho mais minha mente demorou para se dar conta, até que um dia alguém me disse: “Você precisa se afastar, precisa seguir sua vida. Deixa que agora é com a gente!”. E só a partir desse momento percebi que precisava virar a chave.

Comecei a colocar na mesa todas as possibilidades: Morar em Portugal? Morar na Argentina? Viver uma vida mais tranquila no interior? Mudar para uma praia do Nordeste? Cursar uma nova graduação? Me dedicar diariamente a exercícios físicos? Voltar a surfar e ficar próximo da praia? Fazer um mochilão pela europa? Quando as opções são infinitas, tomar uma decisão é praticamente impossível e não nos deixa mais felizes ou satisfeitos, como já dizia Barry Schwartz em O Paradoxo da escolha.

Como tinha algumas pendências para resolver, fui levando a vida na mesma cidade e sem grandes mudanças. Eram pequenas obras que precisava finalizar no apartamento, carro que precisava vender, objetos que precisava doar. Comecei a simplificar minha vida e isso foi levando mais tempo do que esperava e cada vez mais me deixava preso com tantas "tarefas". O ambiente nunca estará totalmente favorável para grandes mudanças, sempre existirão coisas pendentes para serem feitas. Considerava um curso de marcenaria, aprender um instrumento musical, fazer um curso de línguas, me matricular em uma academia, mas o tempo foi passando e não fiz nenhuma dessas coisas pois não queria me apegar em nada que me deixasse fisicamente preso. No fundo eu não percebia que estava com medo de sair da minha bolha de segurança.

O fato de eu ter medo de avião sempre me atrapalhou em ir e vir quando se trata de lugares que o ônibus se torna um martírio (para mim, qualquer distância acima de 500 km). Eu não deixo de viajar, mas tento me esquivar e evitar a viagem ao máximo. Pensei em comprar um carro SUV e viajar por diversas cidades, mas o risco de fazer isso em um país como o Brasil me desencorajou.

Passado os primeiros 6 meses (por volta de fevereiro de 2018) a minha vida estava horrível. Estava me sentindo completamente sozinho e deprimido por ter planejado mudanças e não ter conseguido colocar em prática. Comecei uma terapia para tentar entender minhas dificuldades em sair da zona de conforto e desbravar novos caminhos. Nesse período eu estava solteiro e sem um trabalho para ocupar minha mente. Costumava dormir as 5 da manhã lendo blogs de finanças e assistindo filmes, e acordava às 13:00 hrs num estilo de vida onde não vivia, apenas sobrevivia.

Um texto muito interessante que retrata o que sentia:

"O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde onde as certezas moram."

Interessante como a insatisfação é o maior remédio para fazermos algo diferente. Na primeira quinzena de fevereiro eu tentei "viver o carnaval" e o vazio ficou ainda maior, pois não me identificava com aquela felicidade extrema das pessoas regadas por álcool e extravasando tudo que elas não podiam expor publicamente no restante do ano. Isso foi o estopim para eu ir até uma loja de esportes e comprar uma mochila de viagem e alguns acessórios para enfrentar uma aventura sem data de retorno. Estava decidido que iria enfrentar meu medo de avião e viajar para algum lugar do Brasil nas próximas 24 horas.

Na manhã seguinte preparei a mochila, comprei uma passagem e no fim da tarde estava a caminho do aeroporto com destino a Belo Horizonte. Tudo ocorreu bem durante o voo e numa escala de zero a dez meu medo foi quatro (ansiolítico sempre me ajuda nessas horas). Deixei para reservar o hotel assim que o avião pousou e esse planejamento praticamente inexistente continuou por toda minha viagem. Estava tão decidido a enfrentar meu medo que preferi pensar que se morresse de um acidente de avião, pelo menos não seria por covardia. Foram 2 meses fazendo mochilão pelo Brasil me sentindo vivo! Passei por muitas cidades e lugares, tendo contato com pessoas diferentes e conhecendo histórias muito interessantes e outras pessoas que estavam em busca de um sentido em suas vidas. Relato um pouco mais dessa vivência nesse post.

Essa experiência foi um divisor de águas e fez tudo valer a pena, pois estava livre de compromissos e pessoas. Toda minha energia e atenção estava em desfrutar e planejar onde e quando seria o próximo destino. Foram experiências repletas de aventuras e perrengues dos mais variados tipos, como ir num posto de saúde do SUS para tratar uma asma em uma cidadezinha que só tinha um médico, dormir em hotel de beira de estrada pois a BR-101 desabou com as chuvas, vagar na escuridão de Caraíva com o tênis cheio de areia porque o ônibus atrasou e a pousada estava com a recepção fechada. No fim tudo correu bem e eu provei para mim mesmo que sou capaz de enfrentar sozinho o desconhecido.

Minha viagem se encerrou em Salvador, uma lugar que me fez conhecer um pouco mais sobre a história do Brasil. Decidi ficar alguns dias para conhecer a cidade e em seguida pegar um voo de volta para casa.

Aprendi que no fim das contas a liberdade e as prisões somos nós quem criamos. Nos dias de hoje todos nascemos livres, mas ao longo da vida criamos raízes que só torna nossas vidas mais complexas e imobilizada.

Estou fazendo uma série de posts sobre meu primeiro ano FIRE, onde já falei sobre Glamour x Liberdade e nos próximos falarei sobre fluxo de caixa e investimentos, a romantização da aposentadoria precoce, e quais serão meus próximos passos em relação a matrix (sair completamente, voltar de cabeça ou conciliar ambos.)

Um grande abraço!

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Renda fixa versus Renda variável

Uma dúvida que todo investidor passa em algum momento: Investir em renda fixa e ter rendimentos pequenos e constantes ou investir em renda variável e "correr o risco" de ganhar muito dinheiro rapidamente? Há ainda o tipo de pessoa que dá um all-in em criptomoedas ou na ação da moda que um guru financeiro disse que irá valorizar 100% no curto prazo. Cuidado! O mercado está cheio de especialistas e videntes que sabem o que é melhor para o seu dinheiro.

Vemos a todo momento notícias do bilionário Warren Buffett nos EUA e do Luiz Barsi no Brasil que fizeram fortunas na bolsa de valores. É muito sexy e tentador! Mas saiba que existem muitos fatores envolvidos que você pode não estar preparado para lidar com grandes perdas e ter que recomeçar tudo novamente (várias vezes).

Porque nosso cérebro insiste em querer acelerar as coisas e não aprendemos com os ditos populares? "Devagar se vai ao longe", ou de "grão em grão a galinha enche o papo". Muitas vezes temos uma visão míope de que podemos ficar rico em pouco tempo. O extremo disso são pessoas que compram bilhete premiado da mega sena de um ambulante no meio da praça da Sé, ou o indivíduo que acredita ser o escolhido para fazer parte de um "seleto grupo de empreendedores" para vender o revolucionário emagrecedor ou cosmético da moda.

Após atingir minha independência financeira, continuei exposto em um grau elevado em renda variável (cerca de 50% do portfólio em fundos multimercado, fundo de ações e criptomoedas). Mesmo assim estou conseguindo bater mais de 100% do CDI ao longo dos últimos dois anos, mas se estivesse investindo somente em renda fixa (CDB, Tesouro, LCA e Debênture) meu desempenho teria sido muito melhor.

O excelente blog do AA40 apresentou recentemente alguns estudos comparando Renda fixa x Renda variável desde o início do plano Real e lá ele provou que a renda fixa bateu praticamente todos os anos a renda variável. Dessa forma cheguei a conclusão que vou mudar minha estratégia de fifty-fifty para 90% de RF (de preferência IPCA + X% para garantir ganhos reais).

Um amigo conservador que passou os últimos 3 anos investindo apenas em RF me disse na semana passada que está se preparado para investir em startups. Eu perguntei o porquê da mudança e ele foi categórico: "porque é impossível ficar rico com renda fixa". Hoje eu vejo que a melhor estratégia para um "cidadão comum" atingir FIRE é um conjunto de fatores como: TEMPO + RESILIÊNCIA + FRUGALIDADE + APORTES CONSTANTES, e o melhor investimento de alguém que está construindo patrimônio é o seu trabalho (ou renda ativa). Deixe o tempo fazer o papel dele e não tente acelerar as coisas, pois você pode colocar tudo a perder já que não dá para voltar atrás e o tempo é nosso ativo mais precioso.

Vários estudos mostram que ao longo dos anos uma pessoa que investe em renda fixa no Brasil e que consegue manter aportes constantes, consegue ser FIRE em 20 anos (dependendo dos aportes, muito antes disso). Esse mesmo amigo me disse que um valor confortável para ele seria ter 600 mil reais no banco para atingir a "liberdade financeira" (veja que isso é diferente de independência). Dessa forma, investir em startups seria a pior estratégia possível, já que o risco é gigantesco e com um salário de R$ 10.000 reais ele tem um fluxo mensal de entrada bem acima da média brasileira.

Além do tempo e do dinheiro, um dos itens mais escassos nos dias de hoje é a paciência! É hora de refletir um pouco para tentarmos resgatá-la.

Boa reflexão e bons investimentos!

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

FIRE Parte I: Glamour x Liberdade


Inicialmente imaginei que largaria meu trabalho para iniciar minha vida FIRE quando atingisse 40 anos. Após muitas contas, planilhas e estudos, decidi antecipar um pouco. Tinha a eterna dúvida: “Será que minhas reservas são suficientes?” ou “Deveria juntar mais um pouco?”. Sempre buscamos desculpas para não iniciar algo ou protelar uma decisão difícil, pois além do dinheiro, um dos pontos mais difíceis é largar a segurança da rotina por um futuro desconhecido. O ser humano adora a previsibilidade e se sente menos ansioso quando está inserido em um ambiente que lhe é familiar.

Continuei a pensar: "E se ficar desatualizado no mercado?", "Perderei todo meu networking?", "Se tudo der errado e tiver que procurar um novo emprego?", "Sentirei falta do glamour?". Mas algo falava mais alto na minha cabeça que precisaria parar em um momento que tivesse saúde e vitalidade para esportes como o surf.

Tinha uma posição alta numa empresa de tecnologia, bastante prestígio, plano de saúde top, academia, bônus anuais, etc. Eu vivia em uma “prisão perfeita”. Tinha a vida que muitas pessoas que almejam o "sucesso" buscam, porém totalmente escravo das circunstâncias.

Simplesmente odiava frequentar eventos, sorrir para pessoas que eu não tinha afinidade, almoço de negócios, fazer happy-hour ou criar relacionamentos com pessoas das quais não queria estar. A vida corporativa é um verdadeiro teatro da vida real onde todos acreditamos nos personagens que criamos.

Foram quase 2 anos planejando, planejando, planejando, conversando com pessoas, vendo filmes e tudo que remetia a viver de renda, sair da matrix, seguir um caminho que me desse mais prazer. Cheguei a contratar um planejador financeiro para garantir que não estava fazendo nenhuma besteira e me dar mais segurança. A teoria da TSR de 4% me ajudou muito a balizar quanto precisaria para adaptar minha renda mensal ao meu custo de vida.

Ainda pensando o FIRE como um plano B, estava decidido propor para meu chefe um ano sabático. A resposta dele foi categórica: “Nem pensar! Certamente todos os outros diretores adorariam fazer isso, mas estamos aqui batalhando pela empresa”. Nessa mesma ligação afirmei que não iria mais continuar. Já tinha decidido que se não fosse possível eu acionaria o plano B. Meu tempo de vida não estava em negociação e eu precisava ser dono do meu destino.


Uma metáfora para descrever a sensação que tinha era como se estivesse meu corpo amarrado a uma mala de dinheiro pesada que me mantinha preso (salário e benefícios), mas que eu poderia me desamarrar para conquistar minha liberdade a qualquer momento. No fim das contas o dinheiro e a segurança gerada é totalmente virtual e nascemos livres. Se não colocarmos um teto, o que conquistamos nunca será suficiente e passamos toda a vida em busca de mais. Quando nos damos conta que a vida é finita e que iremos morrer, aumenta o senso de urgência para usufruir e tendemos a valorizar mais o tempo.


Fiquei dois meses na empresa para garantir que deixaria tudo encaminhado e estaria livre para seguir um novo caminho. Separei em um fundo de investimento o recurso que me atenderia pelos próximos 12 meses. Foi com esse dinheiro que paguei meu próprio “salário” incluindo todas as contas: plano de saúde individual, gastos com a casa, celular, supermercado, lazer, transporte, etc. Passei a ganhar menos do que quando estava trabalhando, mas suficiente para viver de forma confortável e acima da média de muitos brasileiros. Tomei cuidado para não ser irresponsável com o dinheiro e não fazer nenhuma extravagância nesse período, garantindo que meus custos se manteriam dentro do planejado.

Iniciei minha vida FIRE vivendo um padrão de vida como um cidadão de classe média em uma capital do Brasil considerada cara, com certo conforto, mas ciente de que os investimentos são meus "funcionários" e que precisarei cuidar muito bem deles daqui pra frente.

Nos próximos posts vou relatar sobre "Liberdade e o Paradoxo da escolha", "Fluxo de caixa e investimentos", "A romantização do FIRE" e mais.